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quinta-feira, 14 de junho de 2012

CIENTISTAS COMPLETAM MAPEAMENTO DO MICROBIOMA HUMANO

Um grupo de cientistas anunciou nesta quarta-feira a identificação completa do microbioma humano, todos os trilhões de micróbios que habitam o nosso corpo. O Projeto do Microbioma Humano, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês), anunciou os resultados em vários artigos nas revistas Nature e Public Library of Sciences


No projeto, participaram quase 80 instituições de pesquisa multidisciplinar que trabalharam durante cinco anos com um subsídio de 153 milhões de dólares (cerca de 206 milhões de reais).
O corpo humano adulto e saudável abriga dez vezes mais micróbios que células humanas e esse contingente inclui arqueobacterias (bactérias primitivas), vírus, bactérias e micróbios eucarióticos (que têm o material genético envolto por membrana). O conjunto do genoma desses organismos é muito maior do que o humano.
"Como os exploradores do século XV que descreviam os contornos de um continente recém-descoberto, os pesquisadores deste projeto empregaram uma nova estratégia tecnológica para definir integralmente, pela primeira vez, o panorama microbial normal do organismo humano", disse o diretor do NIH, Francis Collins.
Pesquisa — Para definir o microbioma humano normal, o grupo estudou 242 voluntários saudáveis (129 homens e 113 mulheres), dos quais obtiveram tecidos de 15 lugares no corpo masculino e de 18 no corpo feminino. Foram tomadas até três mostras de cada voluntário em lugares como vagina, boca, nariz, pele e intestino.
Os artigos publicados proporcionam um panorama integral da diversidade dos micróbios em 18 lugares diferentes do corpo humano. Isto inclui genomas de referência de milhares de micróbios e catálogos de mais de 5 milhões de genes de micróbios.
De acordo com a gerente do programa, Lita Proctor, os humanos não têm todas as enzimas necessárias para digerir os alimentos. "Os micróbios decompõem grande parte das proteínas, lipídios e carboidratos da dieta e os transformam em nutrientes que podemos absorver."
Além disso, Proctor destacou que os micróbios produzem compostos benéficos como as vitaminas e anti-inflamatórios que nosso próprio genoma não pode produzir.
MICROBIOMA HUMANO
O microbioma é a totalidade dos micróbios e seus elementos genéticos, e as interações ambientais em um contexto particular, nesse caso, o corpo humano. O ser humano tem trilhões de bactérias e vírus distribuídos em várias partes do corpo.

terça-feira, 8 de maio de 2012

UM VÍRUS DESCOBERTO POR BRASILEIROS NO COMBATE AO CÂNCER


RIO - Nos laboratórios do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF/UFRJ), um mistério de meio século se desfez. Um vírus, detectado pela primeira vez em 1961, foi finalmente classificado. Pesquisas realizadas desde então não entraram em consenso sobre qual era o gênero do micro-organismo, que afeta o sistema nervoso central dos camundongos, provocando paralisia e encefalite. Seu potencial de infecção aos seres humanos é baixo, mas novos levantamentos podem provar sua utilidade em terapias oncológicas.

Já conferimos que o vírus se multiplica bem em células cancerígenas. Agora, vamos verificar se o mesmo ocorre em outras não-tumorais - explica Clarissa Damaso, professora adjunta do IBCCF e autora principal do projeto, capa da edição de maio da revista científica “Journal of Virology”. - Se ele se replica bem em células tumorais humanas e mal nas demais, podemos estudar a capacidade de ele ser um vírus que mata células de câncer.

O vírus cotia, como é conhecido, foi descoberto quando pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, deixaram camundongos presos em gaiolas e expostas em uma área verde. Por uma semana eles ficaram expostos a micro-organismos e seus hospedeiros, como mosquitos. Quando retornaram a laboratório, constatou-se que parte deles apresentava doenças neurológicas.

Durante 50 anos, três grupos de pesquisa tentaram caracterizar o micro-organismo. Descobriram apenas que era da família dos poxvírus, a mesma que abriga o agente causador da varíola. Agora, porém, os cientistas usaram os mais modernos métodos biológicos e moleculares disponíveis para sequenciar o genoma completo do vírus.

Outros trabalhos tentaram definir qual seria o gênero, dentro desta família, em que este vírus se encaixava. Por isso não atingiram o resultado: porque se trata de um gênero novo - ressalta Clarissa. - O risco que ele promove é grande em roedores e, aparentemente, cervos ou algum outro mamífero da floresta. O homem não deve servir como hospedeiro. Se fosse, acredito que, a esta altura, teríamos notícias de pessoas infectadas, já que ele é conhecido desde 1961.

Segundo a análise conduzida pela equipe de Clarissa, a produção de partículas infecciosas atinge, em uma cultura de células em laboratório, o pico em até 48 horas. Em cada animal, porém, esta produção repercute de uma forma: as células de um primata mal denunciavam a presença do micro-organismo, mesmo estando contaminadas. Já as células de glioma humano ou de um rato, que são tumorais, pareciam totalmente destruídas após a infecção. A diferença, segundo o estudo, pode denunciar que, em certos seres vivos, o efeito do micro-organismo se daria de uma forma mais devagar.

O sequenciamento do genoma revelou, também, genes nunca descritos para esta família de vírus.
Estes genes, semelhantes aos de vertebrados, podem dar indicações de possíveis hospedeiros desses micro-organismos - salienta Clarissa. - Provavelmente, ao longo da evolução desse vírus, esses genes foram incorporados de seus hospedeiros. Não genes tipicamente virais, mas aqueles com alto grau de semelhança com genes de animais.

O destaque obtido pelo trabalho na publicação científica é, para Clarissa, uma prova de que trabalhos de pesquisa básica devem receber mais recursos. Algo que, por aqui, não é comum, dada a falta de aplicação imediata dos resultados.

Encaixamos uma quebra-cabeça de 50 anos, e obtivemos um resultado relevante - destaca a chefe do Laboratório de Biologia Molecular de Vírus da UFRJ, que contou com a ajuda das alunas de pós-graduação Priscila Afonso, Patrícia Silva e Laila Schnellrath. - Este experimento mostra como há, no país, condições de fazer uma pesquisa básica de qualidade. E, também, como recebemos reconhecimento de nossos colegas do exterior, se houver financiamento para nossos estudos.

FONTE: O GLOBO